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20.out.2016

Valor Econômico: Depois da Amazônia, “moratória da soja” chegará ao Cerrado

O jornal Valor Econômico publicou dados de um estudo da Agroicone a ser lançado pelo projeto INPUT sobre a expansão da soja no bioma Cerrado. Arnaldo Carneiro Filho, diretor de Gestão Territorial Inteligente da Agroicone, divulgou os dados em primeirão mão durante evento realizado ontem (19), em São Paulo, sobre os dez anos da moratória da soja na Amazônia. Na ocasião, Arnaldo participou como palestrante da mesa “Desafios à Moratória na Amazônia”. Ele e o professor Gerd Sparovek, da Esalq/USP, explicaram sobre os impactos de outras culturas no desmatamento.

http://www.valor.com.br/agro/4750103/depois-da-amazonia-moratoria-da-soja-chegara-ao-cerrado

DEPOIS DA AMAZÔNIA, “MORATÓRIA DA SOJA” CHEGARÁ AO CERRADO
Por Bettina Barros

Gráfico mostrando o antes e depois do impacto da moratória na taxa de desmatamento da Amazônia.

A moratória da soja na Amazônia completa dez anos em vigor com um saldo positivo: forçou produtores rurais do bioma a expandir a produção para áreas de pastagens e, com isso, evitou que milhares de árvores fossem derrubadas em nome do agronegócio. Agora, ambientalistas pretendem lançar mão do sucesso nos esforços para a preservação da floresta e estender a tolerância zero para o desmate ao Cerrado, segundo maior bioma do país e também onde a fronteira agrícola brasileira avança de forma mais rápida.

A “pedra fundamental” para o início dos debates veio com uma declaração do ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho. “A moratória precisa ser estendida ao Cerrado”, afirmou, ao abrir um evento em São Paulo de comemoração da década do pacto da soja. “E, para isso, iremos publicar a partir de março dados em tempo real sobre o desmatamento do bioma”. Mais que isso: o ministro brasileiro também citou a necessidade de integrar outras cadeias ao monitoramento, como a da carne, para além do escopo atual do pacto. A lógica é clara: quem desmata não está só na Amazônia, nem planta só soja, e também cria boi.

A afirmação gerou expectativas entre alguns dos presentes numa plateia que reuniu logo cedo presidentes de tradings – casos de Raul Padilha, da Bunge, e Luciano Botelho, da ADM – ambientalistas e clientes como Mc Donald’s e Carrefour. Sarney Filho não pensava alto quando trouxe o tema à público. Um dia antes, a própria Abiove, associação que reúne as indústrias de óleos vegetais no Brasil, e o Greenpeace, receberam um e-mail da Europa com a mesma mensagem. “A moratória nos dá conforto e a segurança de que nossas empresas não estão contribuindo com o desmate. Esperamos ansiosamente discutir potenciais expansões do pacto para além do bioma amazônico”, dizia a mensagem de Keith Kenny, vice-presidente global de sustentabilidade do McDonald’s, em nome do European Soy Customer Group, o grupo mais influente de compradores de soja da Europa.

O Cerrado tem sido um “não-tema” da indústria da soja nas reuniões técnicas da moratória – ou seja, algo que ninguém quer sequer ouvir falar. Nas palavras de um ambientalista, o bioma entrou nas negociações como um “trade-off”: a Amazônia seria preservada e, em contrapartida, o plantio de soja avançaria no Cerrado. DADOS DA CONSULTORIA AGROICONE CORROBORAM COM ESSA EXPLICAÇÃO. NO “MATOPIBA”, CONFLUÊNCIA DE MARANHÃO, TOCANTINS, PIAUÍ E OESTE DA BAHIA, A ÁREA DE SOJA AUMENTOU DE 1 MILHÃO DE HECTARES PARA 3,4 MILHÕES DE HECTARES ENTRE 2000 E 2014 – ALTA DE 253%. A MAIOR PARTE OCORREU SOBRE VEGETAÇÃO NATIVA, SOBRETUDO NO MARANHÃO E PIAUÍ.

Frederico Machado, especialista em politicas públicas para alimentos e agricultura do WWF, diz ser de extrema importância levar o pacto de desmatamento zero para o Cerrado, que se espraia por boa parte de Matopiba, e concentra bacias hidrográficas vitais para o abastecimento de água no país. Ao contrário da Amazônia, porém, o bioma é o “patinho feio” do país. Em geral, está associado à aridez e à presença de menos árvores, sem o verde icônico da floresta tropical. “É um marketing perverso que precisamos mudar”.

Criado em junho de 2006, a moratória da soja na Amazônia foi o primeiro compromisso mundial de tolerância zero ao desflorestamento. Com foco no monitoramento de propriedades privadas, reúne Abiove, Anec (associação das empresas exportadoras de cereais) e ONGs da sociedade civil. Prorrogado por prazo indeterminado, o pacto tem como mérito estancar a sangria desenfreada na última grande floresta tropical do planeta. Apesar de a área de soja ter praticamente triplicado no bioma desde o início do pacto – de 1,2 milhão para 3,9 milhões de hectares -, a taxa de desmatamento não acompanhou essa evolução, diz Paulo Adário, do Greenpeace.

Em dez anos, a Amazônia sofreu perdas de 3,1 milhões de hectares para o grão. Sem a moratória, o estrago teria sido bem maior. A pressão, agora, pende para onde a soja cresce mais.

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